Cegueira

Arturo Fuentes

Concerto cénico para ensemble de percussões  2018-2019
ESTREIA 30.11.2019 Biblioteca José Saramago

Ideia original: Arturo Fuentes

Direção cénica, desenho de luz e música: Arturo Fuentes

Direção musical: Miquel Bernat 

Intérpretes: Drumming GP



Cegueira é uma obra inspirada no livro Ensaio sobre a cegueira (1995) do escritor José Saramago (1922-2010), Prémio Nobel da Literatura em 1998.

Creio que estamos cegos, cegos que vêm, ciegos que vendo, não vêm” J. Saramago

O romance de José Saramago, escrito em 1995, não perdeu a sua atualidade: uma sociedade que se move cegamente, egocentricamente, sem conseguir ver o seu próximo, a construir, ferindo. Atualmente outros problemas se juntam àquela sociedade cruel definida por Saramago: o meio ambiente, o terrorismo, a migração, etc. Somos cegos que, vendo, não vemos as soluções.

Cegueira é um concerto cénico inspirado no livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago, criado pelo compositor Arturo Fuentes para o Drumming Grupo de Percussão em seu vigésimo aniversário (1999-2019). A encenação leva-nos ao mundo das sensações visuais
e existenciais dos cegos que habitam o asilo a que estão sujeitos, vítimas da epidemia de “cegueira branca” que se esconde na cidade. Um microcosmos começa a tomar forma naquele confinamento forçado, onde a cegueira física é uma metáfora da cegueira existencial e a luta pela sobrevivência desmascara uma sociedade egoísta e cruel.

Resumo artístico

Sob a direção artística e musical de Arturo Fuentes, os músicos do Drumming Grupo de Percussão entram na “gaiola” (estrutura metálica no meio do palco, semelhante à usada nas construções – andaimes) e aí recriam o recrutamento dos cegos no asilo. A iluminação, parte fundamental do espetáculo, é branca, a mesma cor que o cego viu no romance de Saramago. Para isso, um conjunto de iluminação usado nas sessões de fotos e filmes será instalado. A estrutura metálica é uma membrana gigante que vibra, os instrumentos de percussão pendem dela, convidando os membros do conjunto que se movem de um lugar para outro para tocá-los.

Quatro câmaras e quatro monitores de TV (também pendurados na estrutura) permitem-nos ver o que está a acontecer lá dentro, como se fossem os olhos do público que vê, especialmente num momento importante na dramaturgia do espetáculo, quando todas as luzes se apagam e os percussionistas têm que tocar às escuras, as câmaras no modo night-shot captam as imagens em tons verdes. A música de Arturo Fuentes envolve tudo, mistura sons eletrónicos, barulhos da cidade, consultório médico, etc., conjuntamente com os instrumentos de percussão e uma voz feminina (“a esposa do médico”, famosa personagem do livro, a única pessoa que via entre os cegos) que narra algumas passagens ou frases do livro de Saramago. Os percussionistas interagem com essa voz, respondem com frases também do livro, criando assim uma dramaturgia sustentada pelo som de uma selva de instrumentos de percussão no meio de uma luz branca.