Music for 18 musicians

Drumming & Steve Reich, Escrita entre 1974 e 1976, “Music for 18 Musicians” é uma das obras mais emblemáticas e conhecida da produção de S. Reich. Ao longo de mais de uma hora um grande arco sonoro com 11 secções continuas cria uma atmosfera hipnótica, uma espécie de transe em que o corpo e mente se fundem numa experiência sensorial única. Afastando-se dos modelos que marcaram o início da sua carreira, Reich usou instrumentos aos quais nunca tinha recorrido como clarinetes e cordas. Agrupou ciclicamente vários acordes (11 um acorde principal em cada uma das secções) com uma grande transformação e sobrepôs duas correntes distintas de tempo: o tempo regular que marca a pulsação e rítmica da obra e o tempo/duração da respiração das vozes e dos instrumentos de sopro. A sobreposição e sucessão de ostinati criam um ambiente encantatório, no qual o som se aproxima e distancia do ouvinte. A repetição de padrões que se transformam, como na música para gamelão indonésio apresenta aos nossos sentidos um novo mundo de espaço e de tempo nesta obra essencial do século XX. 

You Are a Dead Pixel 

Um dead pixel é um ponto inativo e isolado num ecrã,  circundado por outros tantos pixels em pleno  funcionamento. Esta conceito descreve o fenómeno no qual  um pixel de um ecrã deixa de funcionar e está  impossibilitado de mudar de cor. É visualizado muitas vezes  como um ponto preto, no meio de um ecrã totalmente  branco.  

Esta ideia é o ponto de partida conceptual para uma obra nova  multimédia-imersiva que será escrita para o Drumming GP e  grupo de jazz. Este conceito revela-se como uma analogia de  como cada ser humano pode estar isolado e de alguma forma  insignificante no meio de uma sociedade digitalmente  individualizada e imensa, explorando o sentimento de isolamento  como um estado de espírito de êxtase. 

You Are a Dead Pixel desenvolve uma linguagem multimédia, em  coexistência com performers, vídeo, eletrónica e luz, onde  sombras são esculpidas através das diversas projeções que  inundam o espaço, criando um projeto multisensorial, onde o  ambiente audiovisual imersivo e denso é criado a partir de total  escuridão. A perceção do espaço físico onde a ação ocorre é  moldada e manipulada pela luz e diferentes formas vectoriais  produzidas pelo vídeo e luz, interagindo intimamente com um  sistema de mapeamento de vídeo que rodeia o ensemble e o  público. A perceção do espectador é manipulada e subvertida pelas ferramentas multimídia num fluxo constante ao longo da  peça, criando uma estimulação contínua dos sentidos, mantendo  a audiência numa energia sustentada. 

Esta obra forma um concerto completo (aproximadamente 1  hora) e cria uma ponte musical entre o jazz, ensemble de  percussão, música improvisada, meios multimédia e novas  tecnologias, reunindo estas práticas artísticas numa performance  híbrida.

Pop Metamorfoses

Uma das grandes preocupações do meio artístico musical atual, e consequentemente do Drumming GP, é o pouco conhecimento, difusão e recetividade da música contemporânea e erudita junto da comunidade. Esta lacuna criou um distanciamento do público, que se tornou pouco permeável a esta forma artística. Contudo, acreditamos genuinamente que a música contemporânea é um género artístico fundamental para o desenvolvimento da sociedade e, particularmente, da arte sonora, preservando e cultivando valores essenciais para o desenvolvimento da humanidade e promovendo a reflexão e o debate sobre questões sociais, políticas e culturais, pois não está sujeita às leis da indústria atuais.

Diversos motivos históricos levaram ao distanciamento entre o povo e a música erudita contemporânea, com especial destaque para a Guerra Fria. Após a instauração do bloco ocidental e soviético nos anos 50, foram implantadas duas linhas de ação muito distintas que, em paralelo, levaram a um afunilamento deste género musical e, assim, ao distanciamento do povo. 

Por um lado, o bloco ocidental desenvolveu a sua linha criativa e social pós-bélica na Europa através do apoio e incentivo à total liberdade do artista e compositor, sem qualquer tipo de preocupação no impacto da música no público e sociedade, tendo como principal expoente e referência os cursos de verão de Darmstadt. Por outro lado, o bloco Soviético impunha que os seus artistas e criadores escrevessem música “pensada” para o povo, restringindo a possibilidade de se aventurarem em campos mais experimentais, profundos e criativos. Em suma, não permitiam que o artista compusesse com liberdade. 

Hoje, e pela falta de equilíbrio entre as duas linhas de ação, temos a perceção que ambas as opções não contribuíram para a difusão da arte contemporânea. Juntamente com o pouco apoio e a característica normal de a vanguarda não ser uma linha da criação para massas, a criação musical erudita foi, a pouco e pouco, perdendo relevo e distanciou-se do povo.

Por isso criamos este projeto «Pop Metamorfoses» que, através da omnipresente música popular (que com o surgimento da rádio, televisão, discos, computadores e telemóveis chegou até o último recôndito lugar do país e do planeta), será o ponto de partida e uma ponte para a música de criação atual e de vanguarda. Este projeto dá seguimento a um dos nossos projetos mais bem-sucedidos de sempre, o “Rock Metamorfoses”, criado em 2002, para um efetivo de 7 percussionistas e um conjunto de 7 peças de 10 minutos. Já o Pop Metamorfoses terá como base um efetivo de 5 intérpretes (4 percussionistas e uma guitarra elétrica: Miguel Moreira) e será constituído por 10 peças de 7 minutos

Desta vez o desafio será lançado a 10 compositoras/es, que selecionarão individualmente um tema do universo Pop que tenha influenciado, comovido ou acompanhado de alguma maneira a sua vida pessoal e artística. A escolha da referência musical será totalmente livre e servirá de ponto de partida e fonte de inspiração para ser metamorfoseada em composições originais, e não meros arranjos, para grupo de percussão e guitarra elétrica (ou baixo elétrico e sintetizador). Esta é também uma forma de reciclar, porque partimos de músicas já existentes (algumas delas possivelmente já em desuso) e uma maneira de expandir os horizontes desta grande família que são os compositores atuais e dar-lhes a possibilidade de chegar a públicos mais numerosos e diversificados e, assim, facilitar e criar um caminho nesta via da criação.

No decorrer do espetáculo, um excerto do tema original Pop escolhido por cada compositor será ouvido e visto (o espetáculo terá projeção de vídeo) pelo público antes da execução de cada uma das novas obras. Assim, o público terá uma maior perceção do ponto de partida de cada criador e será envolvido pela metamorfose decorrente entre o tema original e criação artística de cada um dos compositores, num manancial de criatividade reviverão a cultura popular «erudizada» e a música erudita «popularizada». Esta transformação tem muita margem de criatividade e é isto que está em jogo: ouvir como o processo composicional pode partir de um ponto muito preciso e levar-nos a uma viagem inesperada, a uma descoberta dos parâmetros da imaginação pura dos nossos autores contemporâneos.