Arte da percussão

Drumming & António Pinho Vargas, Luís Tinoco, Vasco Mendonça, Daniel Bernardes, Pedro Lima O que é que António Pinho Vargas (1951), Luís Tinoco (1969), Vasco Mendonça (1977), Daniel Bernardes (1986) e Pedro Lima (1994) têm em comum?  Além da nacionalidade, aparentemente nada! Além do mais são, todos eles, compositores nascidos em diferentes décadas. A não […]

Intra

Drumming & Mark Fell. Mark Fell returns with an incredible album of rhythmelodic cadences performed with Drumming Grupo De Percussão on the Sixxen metallophone system: a set of six microtonally tuned instruments originally conceived by Iannis Xenakis in 1976.

The eight-part Intra stands out as one of Fell’s most immediate and unusual releases; high in concept but also satisfying an obsession for complex polyrhythms as explored and developed by the likes of Beatrice Dillon, Don’t DJ, and further out to augmented realities rendered by Kara-Lis Coverdale, Kassem Mosse and even Jlin.

Making use of a kind of conceptual future-primitivism, Fell probes the perceptive difference between ideas of simplicity and complexity by sending instructions to acoustic drummers via electronic triggers relayed through headphones, an idea he first explored on the Time and Space Shapes for Gamelan installation made in collaboration with Laurie Spiegel.

His ongoing interests in the classical Indian “Carnatic” music systems also play a big part here; its mathematical sound rules or Tala, have 35 possible combinations – many more than the usual Western structures of minor and major scales. It’s this structure that imbues these recordings with such complex, propulsive and oddly pensive energies.

Concept aside, Intra is a beautiful piece of sound art which sidesteps convention and perceptions of music in a way that’s highly pleasurable, even strangely soothing in its stilted trickle of off kilter tones, revealing successive dimensions with each repeated listen.

Mares

Drumming & António Chagas Rosa. A relação de Portugal e de toda a Península Ibérica com o mar é de incomensurável importância, tendendo a definir social, cultural e estrategicamente o país.

Numa época em que já não há Descobrimentos (de terras ou continentes) e em que a dependência económica do mar tem vindo a diminuir, elevam-se diferentes possibilidades de relação com os oceanos. Os avanços técnicos e científicos têm trazido a descoberto novas utilidades, como a da força da água enquanto fonte de energia ou o fundo do mar como reservatório de materiais e alimento.

Além da sua importância na economia e na política, a presença do mar na cultura portuguesa reflecte-se na poesia, literatura, gastronomia, música, artes plásticas. Impõe-se hoje uma reinterpretação do mar, numa perspectiva actual, através das artes.

Drumming Plays Steve Reich (Ciclo)

Considerado talvez o mais importante e infuente compositor do fnal do século XX e inicio do XXI pelo seu poder criativo e comunicativo, dando a modernidade uma via de criação sem precisar de abraçar as correntes da complexidade e integrando uma diferente forma de atração tonal. É um dos criadores e impulsionadores da chamada Música Minimal ou Música Repetitiva. 

A sua música caracteriza-se por um pulso constante, repetição motívica e uso frequente de cânones que se desenvolvem dentro de estruturas rigorosas, ritmos propulsores, harmonias de diversos géneros musicais (música medieval, jazz…) e uma orquestração repleta de cores sem necessidade duma orquestra sinfónica. 

O legado de Steve Reich tem infuenciado compositores e músicos por todo o planeta pela sua indiscutível autenticidade e talvez por ser “… o maior compositor americano vivo” como o descreveu The Village VOICE. The Guardian descreve-o como um dos poucos compositores que “alterou o rumo da história da música” e o The New Yorker refere-se a ele como “… o músico e pensador mais original dos nossos tempos”.

É o criador de obras como It´s Gonna Rain (1965), Piano Phase (1967), Drumming (1970-71), Music for 18 Musicians (1976), Tehillim (1981), The Desert Music (1984), Different Trains (1988), Three Tales (2002), Double Sextet (2007), Radio Rewrite (2012) que se destacam entre muitas outras, de sua autoria, que são interpretadas por todo o Mundo. 

Desde o início da sua carreira explorou inúmeras técnicas de composição que incluem o uso de loops (em obras como It´s Gonna Rain e Come Out), efeitos de fase repetidos (Phase Patterns, Violin Phase e Piano Phase) e mais tarde explorou novos conceitos musicais em obras como Pendulum Music (em que explora a retroalimentação com microfones) ou Four Organs (alargamento de células musicais) mas rapidamente deixou a experimentação tecnológica para continuar a desenvolver formas de expressão musicais para ensambles estritamente instrumentais.

Reich foi distinguido com diversos prémios como o prestigioso Praemium Imperiale (2006), o Polar Music Prize (2007), o Prémio Pulitzer de Música (2009) e o Prémio Fundación BBVA Fronteras del Conocimiento (2013) em música contemporânea por ter, como cita a ata, “uma nova concepção da música, apoiada na utilização de elementos realistas, relacionados com o quotidiano e elementos provenientes de músicas tradicionais dos continentes Africano e Asiático” e por “ter aberto novas vias que criaram um diálogo entre cultura popular e culto; entre a modernidade ocidental e as tradições não europeias que resultaram numa feliz combinação de complexidade e transparência”.

Maximizar o Mínimo: Comprender Reich

Drumming & Steve Reich, Como criar uma audição direccionada? Como entrar numa escuta mais profunda e dinâmica e de passo chegar a perceber melhor os processos que  Steve Reich criou na sua música?. Pode a música estar construída a partir do processo e não na forma?. Como os meios electrónicos ajudaram a  criação de formas musicas como a “fase”?. Descortinar estes “modus operandi” que Reich utilizou na sua música e como isso assentou as bases para  uma nova maneira de estar da música, sem ter de fugir nem ter de “explodir” ou criar uma ruptura com a tradição. Abrasar a tradição a partir de  outra ótica, um caleidoscópio de escuta dirigida, em isto radica a genialidade do compositor norte-americano. 

Pensado para todos os públicos, sobretudo estudantes, crianças e idosos. Este é o objetivo deste programa mínimo, o minimal

Play Off

Drumming & Vasco Mendonça, Um desafio é um desafio é um desafio. A mensagem começa no título, “Play Off”. O compositor Vasco Mendonça (n.1977) indicia que a proposta feita aos Drumming GP, para interpretar composições suas, consolida-se enquanto desafio ao invés de sugestão, convite. A operação desenvolve-se ao longo do álbum, das quatro composições que Mendonça escreveu: “Play Off”, “American Settings”, Three Memos” e “Aphasia”. O desafio resolve-se a si mesmo no final – “Aphasia” – e realça o poder de uma história em três actos. A narrativa prevalece. Vasco Mendonça quer um ouvinte activo. As quatro partes de “Play Off”, a peça, sugerem um jogo jogado em jeito de coreografia contínua.

Passa pela criação de familiaridade com o som dos Drumming GP – quer se conheça ou não, funciona de igual modo -, no fundo, de acomodar uma série de princípios que serão executados de maneiras diferentes ou fragmentados nas restantes composições. Se o álbum se inicia com uma espécie de tempestade, “American Settings” anuncia paisagem, a contemporaneidade norte-americana recriada através das palavras dos poetas norte-americanos Terrance Hayes e Tracy K. Smith, interpretadas por Stephen Diaz. A primeira metade do álbum alude a um excesso – propositado.

O desafio mais levado à letra, isto é, enquanto percepção física – sonora – para o ouvinte. Em “Three Memos” o cenário muda para uma reflexão sobre os recursos dos músicos e como pensá-los: a ideia de escassez presente, como forma de libertação por oposição à limitação. Acontece uma mudança de narrativa – controlada por Vasco Mendonça, mais uma alusão à permanente ideia de desafio – e os intervalos, os silêncios, desenvolvem uma noção de ritmo e intensidade inexistentes até então. A experiência do som, da criação, acomoda “Aphasia”, o mais ambicioso dos quatro desafios. Próxima da electrónica quebrada dos 1990s, “Aphasia” constrói uma narrativa própria dentro da de “Play Off”, e separa-se da ideia de “música contemporânea” para conjugar linguagens próximas do universo da música popular. Peça transformadora e que se transforma dentro de uma particular alucinação.

Time Poetries

Drumming & Carlos Guedes. Time poetries – (Poemas do tempo) é um ciclo de peças para quarteto de lâminas e pequenos instrumentos de percussão e electrónica sob suporte fixo, que exploram a passagem do tempo em música. Como disse Susanne Langer, “a música torna o tempo audível” (1953, p. 110). Estas peças exploram a música como uma suprema arte do tempo, tornando-o audível de várias formas e explorando e aplicando técnicas de ilusão temporal como os “ritmos de Risset” que criam ilusões de acelerando ou ritardando contínuas e infnitas, ritmos Euclidianos, ou técnicas de modulação métrica usadas comumente na música carnática do sul da índia.

O ciclo, encomendado pelo Drumming Grupo de Percussão do Porto, totaliza cerca de 55 minutos e leva os ouvintes numa viagem hipnótica, induzindo estados de transe e explorando sonoridades que evocam a música psicadélica. Pretende-se que o público entre numa viagem musico-temporal libertadora experienciando vários estados emocionais que advêm de diferentes formas de estar no tempo.

ClockWork

Drumming & Daniel Bernardes, Na sequência do aclamado “Liturgy of the Birds” em homenagem a Olivier Messiaen, “Clockwork” marca uma nova colaboração entre Daniel Bernardes e o Drumming-GP em homenagem a György Ligeti. Figura incontornável da música do século XX emprestou obras suas às bandas sonoras de filmes como “2001: A Space Odyssey”, “The Shining” e “Eyes Wide Shut” de Stanley Kubrick. Dono de um estilo muito eclético, Ligeti explorou texturas de grandes massas sonoras – cunhando, a esse propósito, o termo micropolifonia, e numa fase posterior debruça-se sobre a rítmica africana como atestam os seus célebres estudos para piano com influências dos universos do Jazz e do Rock. A natural paixão de Daniel Bernardes pela música do mestre Húngaro tornaram claro que este seria o passo natural para uma segunda aventura em colaboração com o Drumming GP.

Compositor e pianista eclético, Daniel Bernardes tem escrito para alguns dos principais solistas portugueses, Teatro, Televisão e Cinema. Em 2019 lança “Liturgy of the Birds” em parceria com o Drumming GP – agrupamento de referencia mundial no universo da percussão contemporânea – disco aclamado pela crítica nacional (Jazz.pt ; nomeação para disco do ano nos prémios Play) e internacional (destaque nas escolhas do editor da revista JazzTimes USA e presença em vários programas de rádio da especialidade). Apesar da pandemia “Liturgy of the Birds” percorreu o país apresentando-se em algumas das principais salas portuguesas: Fundação Gulbenkian e Centro Cultural de Belém -Lisboa, Casa da Música – Porto, Teatro Baltazar Dias – Funchal, Teatro Stephens – Marinha Grande, Centro Cultural Benedita – Alcobaça, Centro Cultural e Congressos – Caldas da Rainha, Teatro Garcia de Resende – Évora e Salão Medieval da Universidade do Minho de Braga.

Os projectos de Daniel Bernardes envolvem um ecletismo assumido e um diálogo entre diferentes estéticas musicais e muitas vezes com dimensões trans-disciplinares. Em “Liturgy of the Birds” Bernardes mergulhou no universo de Olivier Messiaen, figura incontornável da música do século XX, e pô-la em diálogo com o Jazz e a improvisação.

O projecto que aqui se apresenta segue um paradigma semelhante, um crossover entre a música contemporânea e o Jazz, debruçando-se agora na obra do compositor György Ligeti cujo centenário se comemora em 2023.

O grande público conhece Ligeti pela mão de Stanley Kubrick que integra a sua música no filme 2001: Odisseia no Espaço, e filmes subsequentes. Numa altura em que a vanguarda musical estava muito polarizada, numa dicotomia Europa–Estados Unidos, este sucesso popular proporcionou a Ligeti uma grande liberdade artística com a qual ele forjou um percurso que prima pelo ecletismo, e uma relativização dos dogmas que permeavam a composição musical.

Ligeti trabalhou o universo da micro-polifonia, um processo que procurava as texturas e grandes massas sonoras tornando impossível a percepção das vozes individuais em obras como “Ramifications”, “Atmospheres”, “Lontano” entre outras.

O ritmo foi outra das grandes áreas exploradas por Ligeti, desde as primeiras influências da música tradicional húngara pela mão de Bartok mas também pela música africana com um ADN rítmico muito próprio “Concerto para Piano” “Concerto para Violino” “Estudos para Piano”.

For Percussion

Drumming & @C. This album collects works created for or with Drumming GP, a percussion ensemble founded in 1999 by Miquel Bernat, a world-class performer and teacher. Drumming works across styles, from contemporary composition to jazz, from music for theatre and dance, to a timbila orchestra that explores the traditional African instrument in its traditional repertoire and contemporary compositions. Drumming has partnered with dozens of composers to create new works that have significantly contributed to expanding the contemporary repertoire for percussion ensembles. They have released multiple works, from monographic albums to collaborations with composers such as Jesus Rueda, António Pinho Vargas, José Manuel López López, Luís Tinoco, Joana Gama and Luís Fernandes, Vasco Mendonça, or Mark Fell.

This collaboration led to reflect upon and reconsider our working processes. When we make music, we usually do not write for other musicians but rather for ourselves, and for our computers, we program. Perhaps because of that, we tend not to think about what we do as “composing”.

A composition prescribes the results of a process that, in general, it does not detail. A program, on the other hand, is focused on a process. Both are information. The composition is a description and the program is an instruction. But a composition can, of course, contain or be procedural information, information that does. A composition can be a liminal object that is part abstraction and part embodied activity.

When Miquel Bernat approached us with a proposal to compose a piece that could bring us together on stage: our computers and their percussion, our lack of musical gesture and their finely honed stage presence, we had to, for the first time, compose for other musicians. We had to consider how our processes of programming could become processes of composing.

This led us to experiment with several approaches and methodologies, not only for that first commission but also for subsequent collaborations. In this process, we discovered ways to collaborate and to create with Drumming.Some of the results of this work with Drumming are already published in other contexts: 62, created from recordings with Miquel Bernat, published in 2008 in the album Up, Down, Charm, Strange, Top, Bottom; or 88 (two firsts) published in 2011 in a compilation. Several of these compositions were performed live, and they are now presented in a recorded format for the first time.

Chronotope

Drumming & Anthony Pateras. A mudança climática está acelerando a maneira como o som viaja debaixo d’água; quanto mais quente mais rápidas viajam as ondas sonoras. Os animais marinhos se comunicam por meio do som. Mudanças neste meio afeta sua capacidade de se alimentar, lutar, migrar… os ecossistemas subaquáticos dependem da velocidade do som: ritmos, batidas, cliques…Pateras parte de estas premissas e da recolha de sons no Fish Bioacoustics da Faculdade de Ciências de Lisboa para recriar e compor a sua “tese” eco-artística submergindo o público num oceano des ons subaquáticos e percussões de cambiantes ritmos.

Muitos animais marinhos se comunicam e navegam por meio do som. Mudanças na velocidade do som afeta sua capacidade de se alimentar, lutar, encontrar um parceiro, evitar predadores e migrar. Para sobreviver e prosperar os ecossistemas subaquáticos dependem da própria velocidade do som e estes ecossistemas estão constituídos por múltiplos elementos rítmicos: batidas, cliques e comunicações entre a vida marinha, bem como correntes em mudança e topologias geológicas.

A politemporalidade (a interação de diferentes velocidades simultâneas) é um elemento que aparece frequentemente no trabalho de Pateras.

A sensação de múltiplos pulsos ou linhas melódicas, tocadas em diferentes instrumentos em diferentes velocidades, cria uma escuta multidimensional e hipersensorial. Projetando vários ritmos ao redor do espaço, múltiplas formas e focos musicais convergem para formar um poderoso coletivo de experiências sonoras.

Pateras esteve em residência em Lisboa, Junho de 2023 a trabalhar com gravações do “Fish Bioacoustics” Laboratório da Faculdade de Ciências (https://www.fishbioacoustics.pt/). Este laboratório tem microfones permanentes instalados no estuário do Tejo para monitorizar o impacto do ruído antropogénico na vida do mar, bem como uma extensa coleção de gravações marinhas da Arrábida, Ilhas dos Açores e Moçambique. O objetivo principal do laboratório é estudar o impacto do ruído e da mudança climática nas espécies locais, especificamente na reprodução e comunicação do peixe-rã e da corvina.

As gravações em alto mar serão manipuladas e esculpidas usando o raro e distinto “Kyma”um sistema de design de som, uma estação de trabalho sofisticada para a transformação espectral. Essas gravações serão mapeadas e orquestradas em quarteto de percussão + piano preparado para ser tocado ao vivo em um concerto eletroacústico virtuoso focado na comunicação musical que se pode fazer debaixo d’água.